terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma data, uma lembrança, uma saudade...





Dizem que se estivesse vivo, Luiz Gonzaga completaria hoje 99 anos. Mas ele nunca partiu, pelo menos não deixou de viver e reviver no coração dos nordestinos, que viram sua vida sofrida retratada nas canções dele.

Para mim, ouvir suas canções sempre foi um prazer indescritível, porém, hoje em dia, ouvir as mesmas canções é doloroso e profundamente emocionante.

O motivo? Meu avô, que nos deixou fisicamente há alguns anos, mas permanece tão vivo quanto o Rei do Baião pelo mesmo motivo. Da mesma forma que Luiz Gonzaga habita entre nós com suas músicas, meu avô nunca partiu de verdade, pois as histórias que contou sobre seus pouco mais de 80 anos arduamente vividos, nunca se apagaram da minha memória.

Pobre, negro, analfabeto, trabalhador, pai e marido amoroso, um exemplo de homem honesto, memória que nunca falhava ao contar sobre sua vida.

Vida essa que começou lá pras bandas de Santo Sé, em um lugar que anos depois foi inundado pelas águas da barragem e do qual ele sentia uma saudade doída.

Trabalhou na roça, nas caldeiras de barcos à vapor no Porto de Santos, pescou surubins no Rio São Francisco, viajou por quase todo o país, criou cinco filhos com o suor do rosto, extraído do sol escaldante que machucava a terra em tempos de seca no sertão baiano. Para ele, qualquer doença se resolvia mastigando jurubeba. Qualquer tristeza era acalentada com boas doses de cafuné. 

Sempre tinha uma história comovente ou engraçada pra contar, um caso, uma anedota de português, um acontecimento histórico que ele presenciou. 

Aliás, como alguém pode saber a história do Brasil de trás pra frente, de frente pra trás, sem nunca ter lido uma linha sequer de qualquer livro? Como um homem consegue saber as horas sem ver os ponteiros do relógio, simplesmente passando a mão sobre seu vidro? Como um velho cego pela crueldade da vida, conseguia saber exatamente onde estava cada coisa dentro do seu embornal e fazer a barba com tamanha precisão sem se cortar? Honesto, educado, respeitoso. Temente a Deus, frequentador assíduo das missas de domingo, "católico, apostólico romano", como ele próprio defendia!

Eu ainda tento entender como ele era capaz de tudo isso, mas desconfio que não haja resposta exata para tamanho mistério. Meu avô foi um homem extraordinário e talvez eu nunca tenha dito a ele o quanto admirava sua coragem em ter vivido tão honrosamente.

Nesse dia 13 de dezembro, ouvir Luiz Gonzaga acendeu uma saudade de chama forte, mas não ruim. Só sentimos saudade do que é bom, do que é bonito, do que é valioso. E é isso que meu avô sempre foi e sempre será pra mim. 

Desde muito nova eu atribuí outro significado ao Natal, como uma data apenas comercial. Mas ainda assim, eu mantinha um encanto engraçado pela magia que meu avô teimava em semear, sentado à mesa, curtindo a ceia e o peru que ele não admitia que faltasse. E todos anos após sua partida, essa data se tornou menos válida e mais vazia.

Luiz Gonzaga sabia cantar como ninguém o sofrimento e superação de homens comuns, assim como meu avô era, assim como milhares também são. Porém, Gonzagão se tornou pra mim uma figura ainda mais importante, porque ajudou a eternizar as lembranças de um tempo onde sentar e ouvir o que meu velho avô tinha a ensinar, era um presente que a vida me dava de tempos em tempos e que eu faço questão de guardar pra sempre. 



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