quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Enigma decifrável

Você sabe quem sou eu?

Sou aquele que nasceu predestinado a cuidar de um planeta, 
meu único lar, mas que o destrói cada vez mais 
tomado pelo egoísmo e arrogância.

Sou aquele que discrimina outros seres pelas 
escolhas que fazem ou por serem simplesmente quem são.

Sou aquele que matou milhões em câmaras de gás 
e campos de concentração por me sentir superior a todas as raças.

Sou aquele que abusa de crianças indefesas para
saciar um desejo podre e asqueroso.

Sou aquele que dissemina a miséria e o desespero estampado nos olhos de uma mãe que tem em seus braços o filho perdido para a fome.

Sou aquele que agride e humilha 
minha esposa, meus filhos, meus subordinados.

Sou aquele que trafica ilusões em uma tragada, 
em uma carreira de pó, destruindo sonhos, vidas, famílias.

Sou aquele que seduziu duas jovens e 
as decapitou em um momento de prazer insano.

Sou aquele que desvia a verba destinada a salvar vidas, 
sem me importar que elas definhem em 
intermináveis filas de hospitais lotados.

Sou aquele que convidou os amigos para se divertir 
ateando fogo a um índio indefeso ou 
a um mendigo esquecido pela sociedade.

Sou aquele que maltrata um animal na rua porque me julgo racional. 
Mas quem é o animal, mesmo?

Sou aquele que dirige embriagado e 
sem controle sobre minha vida acabei com tantas outras.

Sou aquele que deveria ser exemplo de boa conduta, 
mas me comporto de forma vergonhosa.

Sou o ser dono desta lista interminável de atrocidades cometidas, 
impossíveis de serem todas expostas aqui, 
mas que estão registradas na história e 
na memória de quem destruí.

Sou um ser imperfeito, 
que surgiu por um deslize do seu criador.

Muito prazer, me chamam de ser humano, 
mas na verdade sou uma praga que alastra 
e destrói tudo que toca.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Escritos


Encontrei um diário antigo, onde escrevi entre os 09 e 12 anos, cheio de histórias malucas e pedidos descabidos. Minha revolta com a catequese, o desabafo sobre uma professora que me discriminava, o sofrimento quando os gatos sumiam, as brigas com meus irmãos, minha primeira poesia, o sonho de ser atriz (acredite!), etc.
Engraçado como, com o passar do tempo, uma parte da gente deixa de existir...e outra segue eterna...
C'est la vie!

Zé Ninguém

Lá vem ele, com seu chinelo De dedo, calça surrada e Camisa encardida. Nos olhos, tristeza. No bolso, o vazio Nas mãos, as marcas, No estômago, um eco. Fome, fome. Sai cedo de casa, Antes do Sol se erguer, E queimar sua pele , incendiar sua alma. Deixa o rebento jejuando sem pecados Dormindo, sem sono e chorando sem lágrimas. Deixa a mulher revoltada, cansada e frustrada pelo que não consegue ter. Sua vida é inútil e sua inutilidade é ignorada. “Por quê?”, se pergunta. E o eco em seu abdômen responde: “Você não é ninguém, Nunca terá nada, desista.” Fugindo do conselho cruel Resolve decepcionar o seu destino. No que verte dos seus olhos Lava o rosto, os pés, a alma. Levanta a cabeça e o orgulho, Abre a boca pra dizer. Seu moço não me conhece, Não sabe de onde venho, Nem precisa saber. Sou honesto e honrado Só meio desafortunado, Mas com vontade de viver. Não lhe peço trocado, Não lhe peço comida, Apenas me diga O que eu posso fazer Pra merecer Seu respeito e E o simples direito De trabalhar E ver meu filho crescer.

Que seja recíproco o bem e mal que tu propagas...

Um homem afirmou orgulhosamente ter envenenado gatos com chumbinho várias vezes durante sua vida e que o faria de novo. Ao ser questionado se ele sabia que aquela atitude é crime ambiental com pena prevista em lei, ele respondeu que não era crime enquanto ninguém soubesse. A pessoa rebate dizendo que, então, a consciência dele deveria ser a punição. Ele respondeu afirmando que a consciência estava tranquila em relação a isso.
Detalhe: a pessoa capaz de proferir tais absurdos é a mesma que repete a frase "bandido bom é bandido morto." Agora, me pergunto. Quando o bandido é a própria pessoa que faz e fala tais coisas, a pena também se aplica? Ou ela só é válida para os demais agentes da violência?
Pois para mim, quem comete um crime asqueroso como maus-tratos a um animal indefeso, fruto da irresponsabilidade e ignorância de seus donos, vítimas da ausência de políticas ambientais, é tão bandido quanto qualquer um que cometa outros crimes.
Um crime é qualificado, principalmente, pela forma como ele foi executado, somado a consciência de quem comete. Logo, se você mata por prazer, não se arrepende do erro e ainda afirma que faria outras vezes, você não se diferencia em nada daqueles que seu dedo aponta como merecedores da morte.


A diferença é que, ao contrário do indivíduo mencionado, eu não acredito na morte como punição, por isso não a desejo para ele. Desejo somente reciprocidade...e que ele saiba lidar com isso.
Ahh, se você "não suporta gato" a ponto de matá-lo, lembre-se que tem gente muito mais incômoda e inconveniente e nós temos que suportar. Já pensou se eu fosse dar chumbinho a todo mundo que me enche o saco?

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Boca seca

São tantos ventos que sopram contra,
são tantas ondas que me arrastam pra dentro
de um mar sombrio e tortuoso
disposto a me afogar sem piedade.

São tantas flores que murcharam
antes que alguém sentisse o perfume,
deixando tristes os campos
outrora coloridos.
Agora resta somente a cinzenta aridez.

São tantos versos incompletos,
tantos papéis empoeirados nas gavetas
que guardam, em sussurros,
as tormentas que abrigo em meu coração.

É tanto amargor que atravessa a garganta,
dissabores provados por engano
ou inocência.

Onde estará a doçura da vida?
Perdeu-se em cada suspirar...


segunda-feira, 4 de abril de 2016

Carrego-me!



Eu poderia estar chorando, lamentando minha falta de sorte, reclamando da sina triste da minha vida. 

E assim eu fiz.

Encharquei tantos travesseiros, preenchi tantas folha de papel com maus dizeres, aluguei os ouvidos dos poucos amigos que me restavam com as dores da minha alma.

É um direito meu sofrer sem um motivo e chorar sem um razão que você julgue válidos.
É impossível viver de sorrisos constantes, de euforia interminável.

Admiro quem consegue interpretar tão bem essa personagem, infelizmente meus dotes como atriz não chegam a tanto.

Permita-me libertar todos os nós da garganta, aqueles que me sufocaram e impediram que meu canto soasse por aí.

Esses mesmos nós aprisionaram um 'eu' que há muito tempo esqueci que existia.
Alguém que outrora via o mundo com singularidade, mas tentando enxergar o plural que vivia em cada indivíduo que cruzava meu caminho. 

De todos os lugares por onde enfrentei batalhas, com certeza a luta que travo contra o turbilhão de emoções que reina dentro de mim é a mais temerosa. Um território sem lei, sem regras e sem saída. Aqui, todos os dias, a cada minuto de vida, eu tento vencer a mim mesma.

E talvez um dia eu vença e o fardo se torne mais leve, porém a dor nas costas certamente não irá embora, servindo pra lembrar o quanto suportei as dores, ainda que muitas vezes fraquejasse. Nesse dia aprenderei que foi a necessidade de carregar o peso que me fez descobrir o que é ter força.




domingo, 13 de março de 2016

Ilha de mim



I

Deitada sobre a areia morna
banhada por esse mar de azul intenso
meu olhar contempla o alto
invade-me uma dúvida inquietante.

Sois água revolta ou céu sereno?

Meu olhar contempla o alto
e a inquietação permanece.

II

Olho ao redor
e busco forças para erguer
o corpo
(a alma).

Convido-te a deitar-se comigo nesse tapete áspero
e espiar o seu reflexo em minha retina.

Vês? Vês como somos iguais?
Somos um nada, um instante, um sopro, 
uma variante sem valor.

III

Agora o céu ganhou cores de fim de tarde
e é finito o meu desejo de levantar
porém a inquietação já não é tão intensa
talvez eu tenha finalmente compreendido.

Que por mais que eu me deite ou me erga
estando só ou em companhia de mim mesma
há coisas que não mudam
outras são um fardo.

Algumas são abismo
de onde salto
Outras são altíssimo cumes
que eu escalo.

IV

De nada adiantam descrições
eu sou o que escrevo, o que penso
o que sinto, o que falo


Sou uma porção de mulher
cercada de sonhos por todos os lados.