quarta-feira, 10 de junho de 2015

Embalo


Noite passada eu tive um sonho diferente. Sonhei que dançava. Mas não era uma dança qualquer, eu levitava. Movimentos suaves, que partiam de dentro até a ponta dos dedos, pés que mal tocavam o chão, rodopios em torno da minha própria alma.

Não me recordo se havia música tocando ou se o som que eu ouvia era apenas um coração pulsando. Talvez eu mesma estivesse murmurando uma canção inventada. Não sei, só sei que dançava.

E era uma cena tão leve, uma coisa tão mansa, como se as feras que em mim habitam estivessem temporariamente domadas. Me lembro bem. Nunca me senti tão preenchida como naquela dança.

E assim acordei do meu sono profundo, pois o cheiro de café já invadia toda a casa, apesar do sol tímido sob as nuvens de outono. Ainda sinto o movimento em minhas pernas, ainda sinto a leveza nos meus braços, e quando fecho os olhos consigo reviver aquele momento.

E se sonhar com algo assim significa alegria e satisfação como dizem, decepciono-me, pois longe disso eu me sinto. Mas enquanto existe o som dentro de mim, eu danço e vivo.

Passagem



O tempo se encarrega de curar feridas
e abrir outras ainda piores.

Os encontros que nos alegram
e as despedidas que nos despedaçam.

Os olhares que se cruzam,
as bocas que se encontram,
as mãos que se afastam.

Pois só o tempo carrega consigo
o dom de esquecer
as dores
a fagulha para reacender
antigos amores
e a arte de passar
por onde fores...


22/05/2015